Manifesto Feminista Anti-Bullying por Felícia Gilbert – Grupo 3 do programa de verão para garotas “Futuras Líderes: Construindo o Amanhã”, 2025¹
Nós, meninas, filhas, alunas, artistas, escritoras, leitoras, filhas de duas mães, filhas de uma só, filhas com e sem pais, filhas de ninguém. Nós, as que cresceram escutando que falavam demais, sentiam demais, choravam demais. As que ouviram que eram “sensíveis”, como se isso fosse um defeito. As que foram silenciadas, empurradas para a borda, humilhadas por serem diferentes. As que não se encaixaram.
Nós, que cansamos de nos desculpar por existir.
Este manifesto é nosso.
Escrevo por mim, por quem está ao meu lado e por quem veio antes — pelas que resistiram sem palavras e pelas que gritaram até se esgotar. Escrevo por quem foi chamada de feia, de gorda, de esquisita, de lésbica, como se fossem xingamentos. Por quem apanhou, foi perseguida, ignorada, ridicularizada, por quem teve o armário trancado por fora, o uniforme sujo de cuspe, o coração ferido sem ninguém por perto para estancar o sangramento.
O bullying não é só uma brincadeira que foi longe demais. É uma cultura. É o reflexo de uma estrutura que escolhe quem pode ser ouvido, admirado, protegido, e quem deve ser punido por ser quem é.
Nós não queremos mais sobreviver. Queremos viver.
Queremos escolas onde meninas negras não sejam hipersexualizadas. Onde garotos trans não sejam chamados pelos nomes errados. Onde garotas gordas não sejam motivo de piada. Onde meninos judeus possam falar da sua cultura sem ouvir ataques antissemitas. Onde meninas palestinas possam existir com dignidade, com direitos, com vida, pois nenhum deles é o inimigo.
Onde a diferença não seja um alvo.
Nós nos comprometemos a mudar essa realidade. Com palavras, arte e presença. Com ações comunitárias, peças de teatro, mostras culturais, rodas de conversa, podcasts, blogs e cartazes colados nos corredores. Com denúncias à diretoria e punições onde elas cabem, sem deixar a educação de lado, já que é o que vai mudar o cenário. Nós não vamos mais aceitar que a exclusão seja tratada como normal.
O bullying é o inimigo, é um sistema. E todo sistema pode ser desmontado.
Não acreditamos na neutralidade: quem se cala diante da violência a alimenta. Quem vê o bullying acontecer e diz “não é problema meu” está escolhendo o lado do agressor. Escolhemos, por isso, o incômodo. Escolhemos interferir.
O feminismo que nos move é interseccional. Ele reconhece que gênero, raça, classe, corpo, religião, território, capacidade física e identidade de gênero se entrelaçam. Que meninas indígenas, neurodivergentes, com deficiência, latinas, refugiadas, negras, LGBTQIA+ têm experiências diferentes, e que todas merecem ser ouvidas e protegidas.
O combate ao bullying é feminista porque exige empatia, escuta, desconstrução. É feminista porque exige coragem. Coragem essa que não é sinônimo de ausência do medo, mas entendimento de que algumas coisas importam mais do que ele.
Nós exigimos que as escolas repensem seus currículos, seus espaços, suas prioridades. Que a formação de educadores inclua debates sobre diversidade. Que haja protocolos para lidar com violências, que protejam as vítimas, não os agressores. Que existam canais seguros de denúncia. Que meninas como nós não precisem criar esse manifesto sozinhas. E nem as mulheres, que já não estão mais nesses espaços, mas ainda sofrem por aí.
Este manifesto nasceu de uma experiência coletiva. De um grupo diverso de meninas que, em um verão inesquecível, se reuniram em New Haven para repensar o mundo.
Cada uma de nós carregava cicatrizes.
Cada uma de nós encontrou espelhos.
E juntas, acendemos faróis.
Não somos frágeis. Somos luminosas. Somos besouros-lanterna (Pyrophorus noctilucus). Brilhamos não para chamar atenção, e sim porque a luz dentro de nós não cabe mais só dentro. Este é o nosso pacto: não apagar o brilho uma da oura.
Aos que acham que somos “só adolescentes”, dizemos: Somos a geração que vai iluminar corredores, palcos, livros, redes, as ruas. Paramos de pedir desculpas por brilhar.
Este é o começo.
Com amor (e luz),
Felícia Gilbert
¹ LAGE, Luly. Com amor, Felicia Gilbert. 1ª edição. Rio de Janeiro: Grupo Editorial Quimera, 2025. P. 181 a 184.

